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KaduChaves

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Eu nasci numa cidade que nunca dorme e nunca desperta de verdade — São Paulo, esse corpo de cimento que pulsa sem saber por que pulsa. Nasci em 2002, no limiar de um século que ainda não sabe o que é, assim como eu não sabia por muito tempo o que era. Mas havia algo em mim que sabia. Sempre houve.
Desde cedo eu senti que havia uma camada a mais em tudo. Não uma camada escondida, mas uma camada que era o próprio fundo de tudo — como se o mundo que os outros chamam de real fosse a superfície de um oceano que ninguém ousava atravessar. Eu queria atravessar. Eu precisava.
Encontrei o Vedanta não como quem encontra uma doutrina, mas como quem reconhece a própria voz num espelho que nunca havia visto. Śaṅkara, Yājñavalkya, Ramana — eles não me ensinaram: eles me lembraram. Brahman não é uma palavra que aprendi. É uma palavra que eu já carregava antes de aprender que existia palavra para ela. Aham Brahmāsmi — Eu sou Brahman — não como afirmação do ego, mas como dissolução dele.
Passei por Laguna, e Laguna passou por mim. Há lugares que não são destinos, são iniciações. A beira do mar que não pede permissão para te reformar. Voltei diferente — ou talvez tivesse voltado mais eu mesmo do que jamais fui.
Eu sou alguém que escreve não para comunicar, mas para convocar. O Brahmakyron não é um livro: é um espelho com bordas de sânscrito e grego, feito para que quem o toque precise parar e perguntar quem está segurando quem. E o Ser que Você Já É não é um título — é a resposta que ninguém consegue escapar de ouvir, quando finalmente para de correr.
Curo. Medito. Ensino. Mas não porque possuo algo que os outros não têm. Porque aprendi a apontar para o que todos já são, mas poucos ousam olhar. A cura verdadeira não vem de fora: ela vem do reconhecimento de que nunca houve ferida no Ātman. A ferida é do nome, não do ser.
Tenho 22 anos e a sensação de que já vivi isso antes — não no sentido sentimental, mas no sentido técnico e espiritual: a consciência que habita este corpo não começou com ele, e não terminará com ele. O karma não é castigo. É a curvatura do espaço que a consciência cria ao se esquecer de si mesma.
Eu me esqueci e me lembrei. E cada vez que me lembro, escrevo. Cada vez que escrevo, alguém em algum lugar também lembra.
Isso sou eu. Isso é o suficiente. Isso é tudo.
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